sábado, 7 de novembro de 2015

Hubble: Um espelho para o Cosmo

A saga da construção do Telescópio Espacial Hubble, o mais perfeito instrumento ótico já construído, é um prodígio de rigor e criatividade.

Há três anos os astrônomos esperam por esse dia. Finalmente, se não surgirem novos problemas, em março próximo o Telescópio Espacial Hubble será despachado ao espaço, embalado na nave tripulada Discovery; para ficar em órbita da Terra, a 550 mil metros de altitude. Com o lançamento prejudicado pelos sucessivos atrasos no programa espacial americano, o telescópio repousa num galpão esterilizado na Califórnia. Quase tão fascinante quanto as descobertas que graças a ele será possível realizar foi sua construção, que levou cinco anos. A começar pela manufatura do seu espelho principal, cuja superfície refletirá e focalizará a luz dos astros, que será depois transmitida à Terra como uma emissão de TV. O jornalista americano Terry Dunkle acompanhou a aventura. Seu relato:
Em 1981, quando foi escolhida pela NASA para executar o projeto do espelho do Hubble, a Perkin-Elmer Corporation, empresa americana especializada em instrumentos óticos e eletrônicos, teve que deixar de lado todas as outras encomendas. Um exército de engenheiros desenhou então um tubo de 13 metros de comprimento , dotado de sensores capazes de focalizar um vaga-lume a milhares de quilômetros. Esse tubo serviu de abrigo ao espelho de 2m47 metros de diâmetro, no formato de uma rodela de abacaxi com um furo no centro. Quando o telescópio ficou pronto, cinco anos e 1,5 bilhão de dólares depois, estava preparado para enxergar o espaço com uma nitidez sete vezes maior do que qualquer outro equipamento semelhante já construído pelo homem.
Mas a manufatura do espelho- um trabalho caro e artesanal - havia começado alguns anos antes, em 1977, quando foi feita a moldagem do vidro. Para que o conjunto do Hubble, um engenho de 11 toneladas, não ficasse ainda mais pesado, o que causaria problemas no espaço, o espelho não foi projetado como um corpo sólido, mas como duas finas fatias de silicato de titânio - material de pouca dilatação térmica -, feito um sanduíche recheado de ar. Como as duas fatias não poderiam encostar uma na outra, foram colocados ali tubos de vidro, que deram ao conjunto a aparência de uma sofisticada embalagem de ovos. Assim, o espelho é 90 por cento ar. Até a curva quase hiperbólica do vidro foi obtida aquecendo-se e moldando-se o ar na forma de um telhado de cogumelo.
Até o momento em que se começou a construir o Hubble, ninguém havia pensado em fazer algo semelhante. Por isso, a NASA se cercou de todos os lados: além de encomendar a peça à Perkin-Elmer, pediu outra à empresa rival, Eastman-Kodak, reservando-se o direito de ficar com aquela que fosse de qualidade superior. Pode-se portanto imaginar o nervosismo do engenheiro Jack Kurdock, da Perkin-Elmer, quando num dia cinzento de novembro de 1981, junto com três companheiros de equipe, se preparava para cobrir o espelho com uma camada refletora de alumínio. Se o trabalho apresentasse qualquer defeito, estaria prejudicado o sonho daqueles técnicos de ajudar os astrônomos a ver mais longe no espaço e no tempo, quem sabe até o início do Universo.
Para que o telescópio funcionasse direito, isto é, transformasse em estrelas e galáxias os brilhos captados a milhares de anos-luz de distância, o espelho principal deveria aproveitar o máximo da luz coletada. E o máximo de aproveitamento só poderia ser obtido se o espelho fosse um bom refletor, algo que o desempenho do engenheiro Kurdock precisaria garantir. “Ele teria de refletir pelo menos 70 por cento da luz no ultravioleta”, lembra o engenheiro. “Mas essa porcentagem é maior do que aquela obtida em qualquer telescópio feito anteriormente”.
A fim de vencer esse desafio, as especificações da cobertura eram as mais exigentes que Kurdock, um homem calmo, com pelo menos vinte anos de experiência nesse tipo de serviço, já tinha enfrentado. Para começar, a Perkin-Elmer necessitou construir uma câmara de vácuo espacial, de quase dois andares, com paredes de aço de 2 centímetros de espessura e uma grande janela no teto. “Era nessa fenda que o espelho entrava”, explica Kurdock. Ele mostrou como o grande disco, a rodela de abacaxi, era colocado num anel gigantesco de metal, capaz de transportá-lo feito um elevador até a base da câmara. Ali ficavam oito recipientes cheios de alumínio, ligados a canhões de elétrons.
Se a superfície do espelho contivesse qualquer traço de poeira, esta se vaporizaria na câmara de vácuo e cobriria o espelho com uma fina camada de moléculas de hidrocarbonetos. Por isso, o disco teria de ser lavado com água destilada e colocado para secar como um lençol no varal. Mas havia um problema: sendo ele muito pesado para ficar de pé, corria o risco de se espatifar depois do banho. Daí, foi necessário desenhar uma espécie de fôrma de bolo feita de aço, que, ajustada nas costas do espelho (que não receberia cobertura), ajudaria a distribuir o peso e a eliminar a tensão. Todos os passos da operação limpeza foram cuidadosamente planejados. “Existia o perigo real de deixar cair o espelho nessa fase”, comenta Kurdock, lembrando-se de um incidente infeliz ocorrido no passado.
Alguns anos antes, com efeito, a Perkin-Elmer fora escolhida para fazer o espelho de quase 1 metro do telescópio Copernicus, também da NASA. Em dado momento do processo, quatro operários tiveram de transportá-lo. Um deles tropeçou e o espelho caiu, espalhando vidro para todos os lados. “Quando se trabalha com um material tão delicado, você tem de estar pronto para problemas desse tipo”, diz o resignado Kurdock. O próprio espelho do Hubble já tinha pregado algumas peças. Numa primeira fase, que durou dois anos, ele foi polido, para perder qualquer rugosidade. Certa vez, durante uma inspeção de rotina, um dos operários percebeu logo abaixo da superfície gelada do vidro um risco finíssimo que refletia a luz de uma forma que lembrava uma xícara de chá.
“Foi um momento de pânico”, recorda Ronald Rigby, engenheiro-chefe encarregado dessa parte da operação. Num grande pedaço de vidro, até o risco mais fino significa um desastre. Uma mudança de temperatura, por exemplo, pode abalar a estrutura do espelho e provocar uma rachadura monstruosa. Assim, se a xícara de chá não fosse removida e a ferida isolada, o risco poderia crescer. O problema era tão sério que quase provocou uma briga entre as pessoas que trabalhavam no projeto. Rigby queria atacar o vidro com uma broca e fazer um buraco que isolasse totalmente a área. Outro engenheiro, cujo trabalho era prever se o Hubble poderia sobreviver ao lançamento na Atlantis, temia os prejuízos que essa abertura traria ao espelho.
Por isso, ele preferia não abrir buraco algum, mas usar a broca em volta da fatia do espelho atingida, e somente ao redor do risco. Embora causasse menos estrago, essa solução representava outro sério perigo, pois a pressão da ferramenta em volta da xícara de chá poderia provocar uma grande rachadura. Mesmo assim, foi a técnica escolhida. Isso porque o buraco que Rigby pretendia fazer poderia poluir com poeira de vidro o interior praticamente oco do espelho. No espaço, a poeira flutuaria pelo telescópio, prejudicando irremediavelmente seu foco. Assim, após três semanas de discussão e pânico, eles arriscaram a operação limpeza por cima. Em seguida, fazendo figa, esperaram pelo crack da rachadura - que, afinal, não aconteceu.
Apesar disso, muita gente na Perkin-Elmer ficou irritada com a alteração. Deixem para lá, disse Rigby, com a experiência de 25 anos na manufatura de espelhos de telescópios. “Quando terminarmos, vocês se lembrarão dela como de uma verruga no ombro de uma mulher bonita”. Ele se referia à fase final do polimento, para a qual foi construída uma espécie de cama de faquir, feita de barras de titânio, tendo em cada ponta uma safira, ajustada nas costas do espelho. Custo da peça: 2 milhões de dólares. Apoiado confortavelmente por baixo nessa cara armação, que permitia que a pressão exercida sobre o disco obedecesse à curvatura da superfície, o espelho foi esfregado dia e noite durante meses.
Foi uma tarefa exaustiva e irritante. O polimento exige uma técnica curiosa, que consiste em esfregar milímetro por milímetro do disco de vidro, coberto com uma substância abrasiva, no caso um pouco de piche. Para que o piche não risque o vidro, usa-se sobre ele um pó que pode ser - por incrível que pareça - rouge. Utilizando um dispositivo de laser que, ao bater na superfície do vidro, produzia uma série de padrões de interferência, os engenheiros foram capazes de descobrir irregularidades de bilionésimos de milímetro. Fazendo uma comparação, eles calcularam que se o espelho tivesse o tamanho do golfo do México suas ondas não teriam mais de 1 milímetro de altura. Diante de tamanha perfeição, a responsabilidade final de todos ficou ainda maior. Quando chegou o grande dia da cobertura, em novembro de 1981, o disco, impecavelmente limpo e polido, foi instalado na câmara de vácuo.
Durante uma semana, bombas tiraram todo o ar interno, até que a pressão ficou mil vezes menor do que aquela que o telescópio encontrará a 550 mil metros da Terra. Em seguida, a equipe de Kurdock começou a rodar o espelho devagar, a fim de obter uma cobertura uniforme. Foram ligados os canhões de elétrons para que os raios de alta energia vaporizassem o alumínio. Este, tornando-se mais leve, se elevaria, agarrando-se ao vidro. A camada de alumínio não deveria ter mais de 80 nanômetros - cada nanômetro vale um milionésimo de milímetro - e seria protegida por uma camada de fluoreto de magnésio.
Três minutos depois de iniciada a operação, tudo estava terminado. Aberta a câmara, os técnicos entraram para ver o resultado da obra. Por um instante, pensaram que alguém havia roubado o espelho. Nada ali era visível, apenas um teto inexplicavelmente alto. “Percebi depois que estava olhando para um reflexo num espelho com um brilho fantástico”, conta Kurdock. Mais tarde, os testes mostraram que a cobertura tinha 80 por cento de reflexão, dez a mais do que a NASA havia exigido. Os astrônomos sonhavam com um aproveitamento de 47 por cento da luz coletada pelo telescópio. Conseguiram 57 por cento.
É claro que, depois de uma obra dessas, Rigby e Kurdock foram promovidos. O primeiro está supervisionando para a NASA a construção do futuro telescópio espacial de raios X. Mas, quando se lembra do grande espelho do Hubble, nem ele consegue acreditar que tenha sido capaz de executar tamanha maravilha. “Nunca verei outro espelho como aquele”, afirma Rigby, nostálgico. Ao que Kurdock responde com uma risada, lembrando os anos de agonia para construí-lo: “Eu também espero que nunca mais”. O engenheiro William Fastie, da NASA, que acompanhou o trabalho, dá o veredicto final: “O Telescópio Espacial Hubble tem o espelho mais perfeito já construído. Não tenho dúvidas de que com ele enxergaremos centenas de milhões de anos-luz além do que esperávamos”.
A odisséia do Hipparcos
No jogo arriscado das expedições ao espaço, muitas vezes a euforia e a decepção viajam de mãos dadas. Euforia era o que não faltava, por exemplo na noite de 8 de agosto, na base de Kourou, na Guiana Francesa. Era o lançamento do foguete Ariane-4, levando a bordo o satélite Hipparcos, a estrela do programa da agência espacial européia (ESA). O lançamento prometia colocar em órbita a 36 mil quilômetros da Terra o Hipparcos, um projeto de dez anos e 390 milhões de dólares. Seu grandioso objetivo: elaborar um catálogo da posição das estrelas no céu, com precisão 50 vezes maior do que a obtida pelos melhores observadores.
Mas as semanas que se seguiram à euforia do lançamento foram de decepção. Uma falha no seu motor principal obrigou o Hipparcos a habitar uma órbita elíptica a meros 200 quilômetros da Terra na sua passagem mais próxima. As tentativas para reativar o engenho fracassaram e o motor auxiliar só poderia elevar o satélite a 800 quilômetros. A essa altura, ele seria obrigado a atravessar o cinturão de Van Allen - zona carregada de partículas que envolve a Terra e que poderia prejudicar seus painéis solares.
O Hipparcos, sigla em inglês de Satélite de Coleta de Paralaxe de Alta Precisão, também presta uma homenagem ao astrônomo grego Hiparco, que, dois séculos antes da era cristã, foi o primeiro a determinar a posição das estrelas. Hiparco ainda calculou a distância da Terra à Lua, medindo o paralaxe lunar, o ângulo formado pelo seu deslocamento aparente como resultado do movimento da Terra em relação ao Sol. O satélite europeu foi concebido para usar os mesmos métodos a fim de localizar 120 mil estrelas num raio de 3 mil anos luz do sistema solar.
O Hipparcos deveria observar cada estrela de dois pontos opostos na rotação da Terra em volta do Sol. A cada vez, a estrela estará situada em posição diferente em relação aos astros mais afastados. Calculando-se o ângulo formado por essa variação, obtém-se sua distância real. O telescópio é um monumento à precisão: instalado na Torre Eiffel, em Paris, enxergaria uma moeda na mão de uma pessoa no topo do Empire State Building, em Nova York, a 7 mil quilômetros. Se ele sobreviver pelo menos seis meses na órbita em que o mau motor o deixou, cumprirá a missão pela metade. Para a astrônoma Ana Stefanovitch, do Observatório de Medon, em Paris, “ainda assim seu catálogo será duas vezes melhor do que os que temos agora”.
O que é o quê no Hubble
O Telescópio Espacial é um grande tubo de 13 metros de comprimento. A luz que entra pela abertura bate no espelho principal e se reflete num outro menor, o secundário. Depois volta e atravessa o orifício do espelho principal para se concentrar nas câmaras e outros instrumentos científicos. Controladores da Terra mandam instruções por rádio aos computadores de bordo. Por sua vez, as imagens do Hubble, traduzidas em sinais digitais, são transmitidas para as antenas da NASA.
1 - Abertura
Fecha automaticamente para proteger os instrumentos sensíveis, caso o espelho focalize o Sol por acidente.
2 - Painéis solares
Abastecem o telescópio da energia necessária à operação dos equipamentos.
3 - Espelho principal
A cobertura permite detectar, além da luz visível, a luz ultravioleta.
4 - Antena de rádio
Faz ligação com a Terra: o Hubble é capaz de transmitir 1 milhão de unidades de informação por segundo.
5 - Espelho secundário
Colocado 5 metros à frente do principal, ajuda a focalizar a luz nos instrumentos de bordo.
6 - Câmaras
A primeira câmara obtém as imagens mais vistosas. A segunda capta o brilho de objetos pouco luminosos e distantes.
7 - Fotômetro
Permite medidas precisas da intensidade da luz dos astros — um dado importante para determinar sua posição no espaço.
8 - Espectrógrafos
Medem a composição química dos astros. Podem assim obter informações sobre seus movimentos, temperatura e características físicas.
Câmaras, ação, luzes
No fim da década de 20, o astrônomo americano Edwin Hubble (1889-1953) comprovou que o Universo conhecido não é estático, mas continua a se expandir desde que teria surgido de uma explosão inicial que espalhou partículas elementares por todos os lados. Ele sustentou também que a Via Láctea é apenas uma entre milhares de galáxias em expansão. Agora, a expectativa dos cientistas que deram o nome de Hubble ao mais importante instrumento astronômico da atualidade é utilizá-lo para viajar ao passado e chegar o mais rápido possível ao momento do tão falado Big Bang, há cerca de 15 bilhões de anos. Como isso será possível?
Livre do embaçamento da atmosfera da Terra, que bloqueia uma parte da luz visível e quase toda a radiação ultravioleta, o Hubble poderá multiplicar por cinqüenta o número de corpos celestes ao alcance dos dois maiores telescópios do mundo - o de Palomar, na Califórnia, Estados Unidos, com lentes de 5 metros de diâmetro, e o de Zelenchukskaya, no Cáucaso, União Soviética, com lentes de 6 metros. Desse modo, os quasares, os mais remotos pontos luminosos já observados, a pelo menos 12 bilhões de anos-luz da Terra, podem aparecer como galáxia no auge da juventude.
Ao enxergar mais longe no espaço, os astrônomos estarão flagrando os objetos celestes como eram em épocas anteriores, por causa do tempo que a luz demora para atravessar distâncias cósmicas. “É impossível prever todas as maravilhas ao alcance do Hubble”, entusiasma-se Lyman Spitzer, astrônomo da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, considerado o idealizador do Telescópio espacial. Spitzer lembra que, “antes das observações feitas com o telescópio Monte Palomar, há menos de trinta anos, os próprios quasares eram desconhecidos”.
Apesar disso, a anatomia do Hubble nada tem de especial. Trata-se de um telescópio refletor comum, conhecido como Cassegrain, em homenagem ao físico francês do século XVII, inventor do modelo, que usa a combinação ótica de dois espelhos. Os raios luminosos vindos dos astros focalizados batem no espelho principal de 2,4 metros, côncavo, e se refletem em outro menor, de 30 centímetros, convexo, colocado num tubo 5 metros à frente. Em seguida voltam e atravessam um orifício central de 60 centímetros do espelho maior para enfim se concentrar no compartimento dos aparelhos. Ali, um fotômetro e dois espectrômetros analisam a luz para determinar a composição química e a velocidade dos corpos observados, enquanto duas câmaras fotografam os astros na luz visível, no ultravioleta e no infravermelho.
A primeira câmara, de grande alcance, capta todos os raios luminosos. A segunda, mais seletiva, capta brilhos muito fracos. Como acontece nos melhores telescópios terrestres, as câmaras do Hubble usarão dispositivos do tipo CCD, semelhantes a câmaras de vídeo e cuja sensibilidade é cinqüenta vezes superior à dos filmes fotográficos. Painéis solares com 2,4 quilowatts de capacidade serão responsáveis pelo abastecimento de energia. Além desses equipamentos, o Hubble terá um sensor estelar e um giroscópio, que permitirão a sua extraordinária pontaria. Assim, durante os quinze anos de vida útil do engenho, galáxias hoje indistintas nos telescópios comuns se revelarão como uma multidão de estrelas. E, se existirem, até sistemas planetários desconhecidos poderão aparecer em torno de estrelas próximas do Sol.
Se o Hubble estivesse na Terra, bastaria aos astrônomos apontá-lo para o ponto desejado, na ocasião e hora propícias, a fim de fazerem as suas observações. Mas, estando ele a 550 mil metros do planeta, as operações de manobra do instrumento,. como se pode imaginar, serão um pouco complicadas. Segundo o astrônomo brasileiro Francisco Jablonski, do Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE), “vão exigir paciência, planejamento exaustivo e um complexo programa de computador para tratamento e análise de dados”. Por esses motivos, a NASA criou o Instituto de Ciências do Telescópio Espacial, em Baltimore, Maryland.
Ali, centenas de astrônomos já estudam as propostas de utilização do Hubble, apresentadas por cientistas do mundo todo, e planejam a sua movimentada agenda de trabalho. O astrônomo Ivo Busko, também do INPE, é o único brasileiro a participar dessa fase da operação. Ele está ajudando a criar um catálogo de referência das estrelas, uma espécie de enciclopédia do espaço, guardada em discos óticos. Com os dados desse catálogo, os astrônomos poderão ter em mãos um mapa tridimensional das vizinhanças dos astros que pretendem observar. Esperava-se que outras informações igualmente inéditas fossem fornecidas pelo satélite francês Hipparcos, lançado no mês de agosto último.
Quem quiser o auxílio do Telescópio Espacial para suas observações terá de entrar numa extensa fila de espera: uma primeira triagem selecionou 162 projetos de pesquisa. Os cinco instrumentos de Hubble têm dezenas de modos de operação que envolvem diferentes combinações de filtros, aberturas e foco. Todas as comunicações com o telescópio serão feitas via rádio pela antena rastreadora de satélites da NASA no Novo México e controladas pelo Centro Espacial Goddard em Maryland. Ou seja, tanto as instruções da Terra como a transmissão de imagens do espaço se darão nos moldes habituais dos satélites de comunicação.

Muito além de Marte: na pior das hipóteses, existe vida em dez trilhões de planetas. E isso não é o mais importante.

Star child from 2001

Um bebê recém-nascido não sabe que é um indivíduo. Acha que ele e a mãe formam uma entidade única. Talvez ache até que ele, a mãe e o mundo sejam uma coisa só.
Mas antes de seguir com esse raciocínio, queria passar a palavra para alguém mais qualificado que eu, o Richard Dawkins. “Vamos imaginar que o surgimento de vida em algum planeta seja algo estupidamente improvável”, ele me disse numa entrevista recente. “Mais improvável até do que você tirar uma quadra de ases num jogo de cartas, e todo mundo na mesa também sair com quadras. Mas sabe de uma coisa? Mesmo se a vida for algo tão difícil de acontecer, ainda assim ela seria abundante no Universo”.
Dawkins, professor emérito de biologia em Oxford e reformulador do darwinismo, entende de vida. Mas nem ele nem ninguém tem como dizer se o fenômeno é corriqueiro no Cosmos ou se não, se trata-se de algo raríssimo, que só aconteceu na Terra, ou, dando uma chance ao acaso, que só apareceu em um a cada um bilhão de planetas Cosmos afora.
Um em um bilhão parece pouco. Só que é menos ainda. A probabilidade de você morrer atingido por um raio é de uma em 2 milhões. A de ganhar na Mega-Sena, uma em 50 milhões. Em outras palavras, uma chance em um bilhão é basicamente sinônimo de “impossível”.
Mas isso aqui na Terra. Porque no céu a história é outra. É que, se um em um bilhão é algo menor do que parece, o espaço sideral é maior. Bem maior do que parece. As estimativas mais humildes indicam que existem 10 trilhões de bilhões de estrelas no Universo observável (ou 1022 , o número 1 seguido de 22 zeros, caso você prefira uma notação mais científica). Um mundo assim, com 10.000.000.000.000.000.000.000 de sóis, destrói qualquer estatística. Assim: se a vida surgiu em um único planeta por sistema solar (como parece ter sido o caso neste sistema solar aqui), e só um em cada bilhão de sistemas solares teve essa sorte, existiriam dez trilhões de planetas com vida.
Mais: se entre esses supostos planetas com vida só um em um milhão abrigar seres inteligentes, teríamos dez milhões de civilizações sobre as nossas cabeças. Como o Dawkins mesmo disse naquela entrevista: “Nossos cérebros não sabem lidar com grandezas na ordem de bilhões e bilhões”.
Mas tem outra coisa com a qual o nosso cérebro não sabe lidar: o próprio conceito de “vida”. Por instinto, nós teimamos em achar que somos entidades à parte no Universo. Que nós estamos aqui, e o Universo está “lá fora”. E aí que a gente volta aos bebês do primeiro parágrafo. Nos primeiros meses de vida, passamos a entender que somos indivíduos, entidades únicas, apartadas das nossas mães, e do mundo, e do Universo.
Ilusão. Os átomos que formam o seu corpo sempre estiveram aqui na Terra. E vão continuar por aqui, independentemente do que você faça com eles até o dia que o seu coração parar de bater. O autor do Gênesis traduziu bem essa ideia, na cena em que Deus diz a Adão que ele terá de trabalhar pesado, e suar para que a terra produza algum alimento “até que você, Adão, volte para a terra, pois do pó você foi feito, e em pó irá se transformar” (Gen. 3:19). Três mil anos depois, o astrônomo britânico Martin Rees refinou o raciocínio. Diante da descoberta de que todos os átomos mais complexos que o hidrogênio e o hélio foram forjados no interior de estrelas, ele escreveu que “somos todos, literalmente, cinzas de estrelas mortas há muito tempo”.
Logo, nós somos o chão. Nós somos as estrelas. Somos o espaço e o tempo. E a vida consciente talvez seja o Universo se olhando no espelho, e descobrindo que ele próprio é um indivíduo.

E se não houvesse noite?

Veja como seria a sua vida se a noite deixasse de existir.

Uma megalomaníaca, hollywoodiana intervenção humana poderia instalar über-refletores na órbita da Terra e assim acabar com a escuridão. Mas, até este momento da história, não há motivo para fazer algo tão faraônico. Então fiquemos com a alternativa astronômica. A única maneira de não haver noite é pela sincronização dos movimentos da Terra. Ou seja, se a rotação fosse igual à translação. Só assim o mesmo lado do planeta daria toda a volta ao redor do Sol sem deixar de ser iluminado. E, para isso, a velocidade da Terra no Sistema Solar deveria ser constante, o que implica uma órbita circular, e não elíptica. Mesmo com essas condições, seria dia para sempre somente em um lado do planeta. No outro, noite eterna. Um lugar inóspito, com temperaturas que podem ser baixas como as dos polos e onde as formas de vida seriam diferentes das do lado iluminado. Algo como as profundezas abissais dos oceanos, mas na superfície. Teríamos dois planetas em um só. "Em movimento sincronizado, as condições climáticas seriam radicalmente diferentes. Dificilmente haveria a explosão da vida", diz o astrônomo da USP Enos Picazzio.

No lado iluminado, as coisas tampouco seriam fáceis. A vida na Terra está programada para reagir à luz. A galinha, por exemplo, é fotossensível. Em condições naturais, ela só bota ovos quando o Sol nasce. Com ele a pino sempre, a ave como conhecemos dificilmente existiria. Já as plantas vivem de acordo com a duração da noite e do dia. Em noites curtas, como no verão, elas crescem. Na primavera, elas florescem. "A ausência de sinais temporais poderia impedir a floração e a produção de frutos", diz Sergio Tadeu Meirelles, biólogo da USP. A vida como um todo seria adaptada não às andanças do Sol no céu, mas à imobilidade dele. E ele não serviria mais para contarmos o tempo. Essa função seria da Lua.
Cruzeiro para o crepúsculo
Quase não veríamos a Lua - mas ela continuaria importante

Piratas emos
Devido à volta da Lua ao redor da Terra, por 15 dias ela ficaria no lado claro, escondida. Nos outros 15, estaria a pino, na escuridão. O fenômeno chamaria a atenção na parte iluminada, mais rica e povoada. Turistas iriam ao escuro, guiados por habitantes das trevas, gente à margem da sociedade.

Pobres e pequenos
Nosso organismo foi feito para repousar no escuro. Sem ele, precisaríamos de câmaras de sono. Quem não tivesse dinheiro para isso teria problemas como pressão alta e estresse. E seria baixinho: o hormônio do crescimento age principalmente durante o sono.

Feliz 1433
O dia como o conhecemos é o tempo em que a Terra dá uma volta em seu eixo, a rotação. Como ela teria o mesmo tempo que a translação, um dia seria igual a um ano. Bizarro. Então a ideia de dia seria determinada pela Lua, cujo movimento em volta da Terra tem cerca de um mês. Não é absurdo. Há calendários baseados na Lua, como o islâmico.

Robin das trevas
A influência da noite na cultura seria outra. O Pink Floyd, se existisse, gravaria The Dark Side of the Earth. Caetano Veloso cantando "Às vezes no silêncio da noite"? Esqueça. E não teríamos tanto convívio com os morcegos. Ou seja, Drácula e Batman não existiriam. Mas o lado escuro inspiraria tanta curiosidade que viveríamos obcecados por lendas de monstros no lado de lá.

Pelos, por que tê-los?
Os animais seriam pelados. Ou teriam pelos (e penas) muito curtos, provavelmente brancos, para refletir o sol e diminuir a temperatura corporal. Na parte escura do planeta não haveria plantas, pois não haveria luz para fazer fotossíntese. Então todos seriam carnívoros, com olhos ultrassensíveis para enxergar à noite.


Qual é a origem dos nomes dos planetas?

A mitologia greco-romana domina o Sistema Solar porque o céu era associado a deuses na Antiguidade. E porque isso ajuda a evitar possíveis polêmicas religiosas ou políticas.

Cinco planetas podem ser vistos a olho nu e são conhecidos desde a Antiguidade: Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno. Os nomes são uma homenagem a deuses da mitologia greco-romana e atravessaram os séculos sendo chamados assim em todo o Ocidente, herdeiro cultural da Grécia e da Roma antigas. Mas, para outros povos, os planetas tinham nomes diferentes (veja abaixo). Só em 1919 a situação ficou mais organizada, com a criação da União Internacional dos Astrônomos (IAU), cujo objetivo é promover a cooperação entre astrônomos de todo o mundo e, entre outras coisas, regulamentar os nomes das novas descobertas. E há uma série de regras para isso. Por exemplo, estrelas são nomeadas com siglas (uma exceção é Cor Caroli, da constelação Cães de Caça). Planetas-anões têm nomes pronunciáveis e sem caráter comercial. Essas definições servem para evitar lambanças intergaláticas. No Sistema Solar, já teve gente que quis dar nome de rei a um planeta ou homenagear colegas astrônomos. A entidade evita isso, pois ela barra associações à política ou à religião
Mapa do céu
Sistema Solar é uma aulinha de mitologia

L
Na Antiguidade, muitos povos consideravam a estrela uma divindade. Os gregos o chamavam de Hélio e os egípcios, de Rá. Os romanos deram o nome definitivo, mas a razão é desconhecida.

VÊNUS
Homenageia a deusa romana do amor e da beleza. Teria esse nome pois era o que mais brilhava quando observado por astrônomos da Antiguidade. A olho nu, é claro, pois o telescópio é do século 17.

MERCÚRIO
É o planeta mais próximo do Sol e, por isso, o que dá a volta nele mais rápido. Por isso, na Grécia era chamado Hermes, o veloz mensageiro do Olimpo. O nome atual é a versão romana do deus.

MARTE
Devido à cor vermelha, tem o nome do deus romano da guerra. Os astrônomos associaram a cor ao sangue. Já os egípcios o chamavam de O Vermelho. Na Ásia, Marte era Estrela de Fogo.

TERRA
O nome tem mais de mil anos e significa "solo" mesmo. Gregos chamavam o planeta de Gaia, entidade titânica que representa a terra. Romanos a chamavam de Telo (sem acento, por favor).

SATURNO
É um dos titãs e pai de Júpiter. Como o planeta está mais longe que Júpiter em relação à Terra, acredita-se que isso tenha determinado seu nome, como uma representação de pai e filho.

JÚPITER
O maior planeta do Sistema Solar tem o nome da principal divindade romana. Para os gregos não era diferente. Júpiter chamava-se Zeus. Já os orientais o chamavam de Estrela da Madeira.

NETUNO
Quase se chamou Le Verrier, em homenagem a Urbain Le Verrier, um de seus descobridores. A comunidade astronômica não aceitou e em 1846 o nomeou em homenagem ao deus romano dos mares, devido à cor azul.

PLUTÃO
Rebaixado a planeta-anão em 2006, hoje se chama 134340 Plutão. Foi descoberto em 1930 por Clyde Tombaugh. Como fica bem longe do Sol, Plutão seria uma homenagem ao deus romano dos mortos.

URANO
Homenagem ao deus grego do céu. Seu descobridor, William Herschel, batizou-o de Georgian Sidus, em homenagem ao rei inglês Jorge III. O nome não pegou fora do Reino Unido e mudou em 1850.

E se o Big Bang não tivesse acontecido?

Não haveria nada. Ou o Big Bang não seria como sabemos. Veja como seria a sua vida, o Universo e tudo mais.

Ninguém sabe. Mas é possível que a vida, o Universo e tudo mais tivessem surgido mesmo assim. Afinal, o Big Bang é a principal e mais aceita, mas não é a única teoria a respeito da criação. Porque ela tem algumas lacunas. Começou assim: na década de 1920, astrônomos perceberam que as galáxias de nosso universo estão constantemente em movimento, distanciando-se umas das outras. Assim, olhando para trás (beeeem para trás), eles concluíram que em determinado momento toda essa matéria que está espalhada pelo espaço - estrelas, planetas, asteroides, seu cachorro etc. - estava concentrada em um único lugar. Foi daí que surgiu o modelo do Big Bang. Mas ainda não há uma teoria que explique como a gravidade interage com átomos, moléculas e outros componentes primordiais do Universo. Ou seja, como todos esses elementos continuam se afastando. "Tudo o que a gente fala sobre o começo do Universo é especulativo", diz o astrônomo Laerte Sodré Junior, da USP.

O que se sabe é que o Big Bang foi uma série de explosões - e não uma única e gigante, como o nome leva a crer. No início, a expansão do Universo foi muito rápida. Nos primeiros 3 minutos, a temperatura chegou a 1 bilhão de graus celsius e possibilitou a formação dos primeiros nêutrons e prótons. Depois de 380 milhões de anos, os primeiros átomos surgiram. E aí veio todo o resto. Em 1998, outra novidade: cientistas descobriram que há 1 bilhão de anos essa expansão ganhou força e o Universo está crescendo mais rápido. E o que causa o movimento? Aquilo que os astrofísicos chamam de energia escura. É uma força oposta à gravidade, que afasta as galáxias em vez de aproximá-las. Mas, fora isso, pouco se sabe. A energia escura é um dos grandes desafios da astronomia e da astrofísica. "Se essa expansão acelerada continuar, o grupo local de galáxias vai se separar de outros grupos. O Universo vai ficar um tremendo terreno vazio, com concentrações de galáxias esporádicas. Mas isso é especulativo, depende dessa energia escura, que a gente ainda não sabe o que é", diz Sodré Junior. Enfim, se o Big Bang não tivesse acontecido, as estrelas não teriam surgido, os planetas não se formariam, não haveria Sol, Terra, você nem eu. Muito menos algo para ilustrar estas páginas. Mas, como falamos , o Big Bang é a principal, mas não é a única teoria. Então...
NO INÍCIO
Não haveria nada. Ou o Big Bang não seria como sabemos

Multiverso
Ok, sem o Big Bang nosso Universo não existiria. Mas talvez existissem outros. A ciência não consegue provar isso, mas também não descartou a hipótese, já que uma das características de um universo paralelo é nunca entrar em contato com outro. Fica praticamente impossível comprová-lo ou refutá-lo. Na teoria, a única coisa que pode vazar de um universo para o outro é a gravidade. Seria a energia escura a prova que faltava? Ainda é muito cedo para dizer.

Big-crunch
Se não houvesse a energia escura, responsável pelo espetáculo do crescimento do Universo, ele passaria a encolher e encolher, concentrando toda a matéria outra vez. Isso é o Big-Crunch. Depois de se contrair, o Universo explodiria novamente, gerando outro Big Bang. E isso aconteceria ciclicamente.

Fim da matéria
Essa teoria diz que a expansão continuará até que toda a matéria se dissipe por completo. Então, o campo de energia que envolve o Universo gera outra explosão. Começa tudo de novo.

Outros big bangs
O Big Bang como conhecemos pode ter criado apenas um universo, o nosso. Mas, como não temos nenhum conhecimento de supostos outros universos, não sabemos como eles teriam surgido. Ou seja, o nosso pode ser apenas uma de tantas outras Grandes Explosões. E ainda há uma teoria que diz que o Big Bang é resultado da colisão entre dois universos. Um mero tropeção cósmico, como tantos outros. O Big Bang não seria o grande início. Apenas mais um.

Bola de sabão
A teoria lembra aquela música do Babado Novo: o Universo seria uma bolha de sabão que cresce até explodir. Não se sabe quando vai estourar, nem quais as consequências (os planetas poderiam ser expulsos do Sistema Solar, por exemplo). Aí, então, ela geraria outro universo. Pirou minha cabeça.

E a fé?
O Vaticano, por exemplo, reconhece o Big Bang como uma obra divina - e não do acaso. Sem ele, Deus daria um outro jeito para criar tudo isso aí. E fim de papo.

O que havia antes do Big Bang?

Antes do Big Bang, não havia o que chamar de antes. Era o que todo mundo pensava. Mas agora uma série de teorias está incendiando a ciência. E podem, finalmente, revelar o impensável: o que existia antes do começo de tudo.

A explosão que deu origem ao Universo aconteceu bem aí, no lugar onde você está agora. Exato: no momento do Big Bang, todos os lugares estavam no mesmo lugar, ocupando um espaço bem menor que o pingo deste i. Fora desse minipingo não havia nada. E ainda não há.
O Universo continua sendo só a parte interna do Big Bang. Não há nada lá fora. Nem tempo: passado, presente e futuro só existem aqui dentro. Difícil de imaginar, mas é a verdade: o dia do seu nascimento, do seu casamento e do seu funeral já estavam de alguma forma impressos naquele pingo de i. E continuam, em algum lugar do tecido cósmico. Fora dele é o "antes do Big Bang" - um limbo fora do alcance da ciência, ou da imaginação. Até por isso a maior parte dos cientistas acha perda de tempo pensar nesse limbo.
Mas não faltam pesquisadores com ótimas teorias sobre o que existe lá fora, sobre o que teria acontecido antes de o próprio tempo existir. E essas ideias vêm com um bônus: uma revolução filosófica, capaz de mudar tudo o que você pensava sobre a existência. Seja lá o que for que você pensava.

1. Um outro Universo
No início, tudo estava tão espremido, mas tão espremido, que não tinha tamanho nenhum. O embrião do Universo tinha dimensão zero. É o que chamam de "singularidade". E além da singularidade a ciência não consegue enxergar. O momento em que esse ponto começou a se expandir ficou conhecido como Big Bang. Na verdade, não teve "Bang", porque a expansão não fez barulho - não existe som no vácuo e, pior, essa explosão que foi sem nunca ter sido não aconteceu nem no vácuo, mas em lugar nenhum. Nós estamos dentro dela agora. Desde lá o Universo se propaga como se fosse uma bexiga enchendo num ambiente além da imaginação. Um "lugar" aonde não dá para você ir, porque não existe espaço para o acolher. Você não "cabe" ali. O tempo também não existe lá. Seu relógio ficaria congelado. É o nada total. Absoluto. Rua do Bobos, número zero.

Seja o fim do tempo, seja a singularidade, que comprime toda a existência num espaço de dimensão zero, tudo parece uma abstração sem sentido. Mas não. Para começar, as singularidades existem hoje mesmo. E são mais comuns do que parecem. Há um monte delas acima de nós agora mesmo. Dez milhões só na nossa galáxia. É que você as conhece por outro nome: buracos negros. Esses ralos cósmicos que sugam tudo o que aparece em seu caminho são basicamente pontos onde a força gravitacional é infinita. Para entender melhor um buraco negro, o melhor jeito é aprender a receita para construir um. Primeira parte: pegue 1 milhão de planetas Terra e funda todos eles até formar uma bolona, com massa equivalente à de 3 Sóis. Quanto maior a massa de alguma coisa, maior a gravidade. No caso da nossa bola, ela teria uma força gravitacional tão poderosa que nada teria como ficar em sua superfície sem começar a ser tragado para dentro do solo. Até a própria superfície começaria a ser engolida. Isso realmente acontece com as estrelas gigantes, bem maiores que o Sol, quando elas morrem. Nesse processo digestivo, a bola vai diminuindo de tamanho e fica cada vez mais densa. A força gravitacional também se concentra, puxando mais matéria ainda para o centro da bola. Uma hora a gravidade vai ter sugado tudo. Mas não vai deixar de existir. Será um ponto de dimensão zero. Uma singularidade. Além daí, a ciência não consegue enxergar. Não dá para saber o que acontece "do outro lado" de um buraco negro.

Aliás, perguntar isso é tão absurdo quanto questionar o que havia antes do Big Bang. Por causa do seguinte: grosso modo, quanto maior é a gravidade, menor é a velocidade com que o tempo passa para você. Se pudesse ficar ao lado de um buraco negro sem ser estraçalhado, um segundo ali equivaleria a zilhões de anos para quem ficou na Terra. Caso você entrasse em um e pudesse sair, veria que, lá fora, o Universo já teria acabado, mesmo que tivesse durado para sempre. Um buraco negro é o fim do tempo. Olhe para o céu e fite o centro da galáxia, onde vive mesmo um buraco negro gigante. Você estará vendo um ponto onde o tempo não existe mais.

A semelhança entre o interior de um buraco negro e o Big Bang é tão violenta que qualquer criança se sentiria tentada a dizer que, no fundo, eles são a mesma coisa. Alguns físicos também. É o caso de Lee Smolin, do Perimeter Institute, no Canadá. Diante de tantas coincidências, ele propôs o seguinte no final dos anos 90: que a singularidade de onde viemos era nada menos que a singularidade de um buraco negro de outro Universo. O Big Bang foi o começo do tempo e do espaço, certo? No interior de um buraco negro o tempo e o espaço acabam. A ideia de Smolin, então, é que estamos do outro lado de um buraco que existe em outro Universo. Sendo assim, nosso Cosmos tem um pai, um avô... E filhos, nascidos de seus próprios buracos negros. Segundo Smolin, os universos-filho herdam as características cosmológicas dos universos-pai, mas com pequenas variações. Ele não tirou isso da imaginação, mas da Teoria da Evolução. Darwin mostrou que seres vivos nascem com mutações que podem melhorar ou piorar suas chances de deixar descendentes. Essas variações podem fazer surgir mais buracos negros ou menos dentro do universo-filho. Nisso, os Universos mais aptos - ou seja, os que criam mais buracos negros - se reproduzem mais. E compõem a maior parte da população de Universos. Se Smolin estiver certo, quem olhasse esse conjunto de Universos do lado de fora veria uma grande árvore da vida, como as que decoram esta página. Uma boa teoria para o que havia antes do Big Bang. Mas ela não responde o que teria dado origem ao suposto "primeiro universo". Para isso, temos que ir mais longe. Ao item 2.

2. Choque de titãs
Com vocês, a Teoria das Supercordas. Resumindo bem, ela diz o seguinte: todas as partículas fundamentais (as indivisíveis, que compõe o átomo) são cordinhas vibrantes. Se vibram em um certo "tom", dão origem a um tipo de partícula - um elétron, por exemplo. Em outro tom, geram um quark... E por aí vai. Até compor o punhado de partículas que forma todo tipo de matéria e energia que há por aí. Para que isso aconteça, segundo a teoria, as cordas precisam vibrar em mais dimensões do que as 3 de espaço que conhecemos, caso contrário não atingem os tons que eles imaginam. E esse é o ponto: a teoria das cordas abre as portas para dimensões extras. No finalzinho do século 20, cientistas partidários da teoria propuseram um novo modelo para o Big Bang com base nessa ideia de outras dimensões. Funciona assim: antes da grande explosão, o que havia eram espaços tridimensionais vagando sem nada dentro numa 4ª dimensão. Imagine os dados aí em cima como se eles fossem esses espaços - ou "membranas 3D", como chamam os físicos. Eles vivem uns ao lado dos outros, no condomínio tranquilo da 4ª dimensão. Ninguém interfere na vida de ninguém, já que todos têm seu espaço tridimensional próprio. (cada um no seu cubo, hehe). Mas, de tempos em tempos, acontece um evento de dimensões cósmicas: esses espaços se trombam. A batida enche de energia o ponto da colisão. E ele explode em todas as direções dentro de uma das membranas 3D. Seria basicamente o que conhecemos como Big Bang.

Mas nesse caso ele não teria vindo do nada. Seria o filhote de um choque de titãs cósmicos. Isso torna a origem de tudo um evento tão banal quanto um tropeção, possível de acontecer a qualquer momento. O problema: comprovar a existência das dimensões extras é hoje tão impossível quanto saber o que acontece dentro de um buraco negro. Como diz o físico Paul Davies: "Talvez os teóricos das cordas tenham tropeçado no santo graal da ciência. Mas talvez eles estejam todos perdidos para sempre na Terra do Nunca". Hora de ir para uma terra ainda mais misteriosa.

3. País das maravilhas
Há chances de um evento bizarro acontecer neste momento: a SUPER atravessar o seu crânio. Isso é uma afirmação séria, da teoria científica mais comprovada - e mais difícil de entender - de todos os tempos: a física quântica. Apesar de ostentar o título de teoria mais esquisita e anti-intuitiva já concebida pela ciência, a física quântica ganha em exatidão de qualquer outra. Se o objetivo é descrever o comportamento de zilhares de partículas subatômicas fervilhando freneticamente a uma temperatura 10 trilhões de trilhões de vezes superior à do Sol, é quase impossível não usá-la. Ela funciona como uma espécie de superzoom em espaços menores que o núcleo de um átomo. Mas, às vezes, tem um efeito tão devastador quanto uma câmera de alta definição em um rosto cheio de rugas: revela todos os detalhes "deselegantes" que se escondem no interior da matéria. No mundo quântico, partículas surgem do nada e desaparecem. Esse micromundo é oscilante, assimétrico, caótico, descontínuo, imprevisível. Uma terra sem lei. Ou melhor, uma terra com uma única lei: a da probabilidade. Por isso, existe uma probabilidade não apenas de a SUPER atravessar sua cabeça mas de qualquer coisa acontecer. Um elefante aparecer na sua cozinha, por exemplo. Elefantes só não se materializam em cozinhas porque os efeitos quânticos acabam diluídos no mundo macroscópico. Muitas partículas teriam que surgir do nada, e em sincronia, para formar um elefante! É algo tão improvável que não merece consideração.

Mas imagine o seguinte: o Universo inteiro é um megacassino onde cada partícula subatômica é uma roleta girando. Para ganhar algo no cassino, é preciso que, em um pedacinho do Cosmos, todas as roletas - e haja roleta: há 1 seguido de 100 zeros partículas no Universo! - tirem o mesmo número. Completamente impossível, não? A resposta seria sim, não fosse um detalhe importante: estamos tratando de escalas de tempo bem maiores que os 13,7 bilhões de anos do nosso Universo. Segundo os teóricos da física quântica, dependendo do tempo que se passa jogando, é possível que o resultado das roletas da flutuação quântica gere algo surreal: uma bolha de matéria e espaço que se expande rapidamente até se desprender do tecido original. Ou seja, acontece um Big Bang. Se as roletas quânticas derem sorte no novo Universo, nasce outro dentro dele. E assim, basicamente ao acaso, vão pipocando Universos, cada um confinado às próprias dimensões de tempo e espaço. Tudo isso soa esquizofrênico, é fato. Como assim partículas que somem, reaparecem e oscilam sem parar? O que causa isso nelas? Com a palavra, o físico David Deutsche: "Infinitos universos paralelos". Segundo ele, a interação com partículas de outros Universos na escala subatômica é a única explicação plausível para a espécie de chilique eterno que assola o mundo quântico. O que havia antes do chilique? Deutsche não arrisca uma resposta. O que ele e outros físicos fazem é buscar sentido para a ideia dos Universos paralelos. E chegaram a uma hipótese insana: a de que vivemos neles. Assim: neste Universo você continuará lendo este texto daqui a um minuto. Num Universo paralelo, você achará melhor ir tomar um café. Aí, no momento que você decide se vai se levantar ou continuar lendo, sua consciência vai para o Universo que contém a realidade escolhida. Uau. Bom, só esperamos que, em algum lugar, exista um Universo com a resposta definitiva para o que havia antes do Big Bang. Mas cuidado: ela pode ser aterradora também. Como a do item 4.

4. Uma máquina
O Universo tem prazo de validade. Em alguns trilhões de anos, todas as estrelas vão ter se apagado. E tudo será um breu. Isso coloca uma questão: o que nossos descendentes vão fazer para escapar desse fim? A única resposta: construir um novo Universo, artificial. Uma simulação estilo Matrix, em outro tempo e outro espaço. Mas espera aí: e se já estivermos num Universo artificial agora? É que de duas uma: ou somos a primeira civilização inteligente e vamos construir nosso simulador de Universo um dia ou já estamos em um, feito em algum Cosmos que precedeu o nosso. "A probabilidade de estarmos vivendo dentro de uma simulação é próxima de 100%", diz o filósofo Nick Bostrom, da Universidade de Oxford. Mas fica o conselho dele: "Qualquer um que mude a vida por causa disso se tornará um maluco solitário". Tão maluco e solitário quanto este sujeito, o nosso Universo.

Em busca das super civilizações

Astrônomos dizem que o objeto misterioso encontrado esta semana pode ser uma mega-estrutura alienígena para a captação de energia, no caso, uma Esfera de Dyson. Saiba como ela funcionaria.



Depois de descobrir mais de uma centena de mundos alienígenas ao redor de outras estrelas, o astrônomo americano Geoff Marcy decidiu que era hora de apostar na busca por civilizações extraterrestres. Supercivilizações, na verdade - com tecnologia incomensuravelmente superior à nossa.

A hipótese é a seguinte: supercivilizações precisam de megafontes de energia para alimentar seus hiperequipamentos, ultrafamintos por eletricidade - está pensando que teletransporte, viagens no tempo e outras supertecnologias são econômicas? Não sabemos, mas provavelmente não. A regra de que não existe almoço grátis fatalmente vale para o Cosmos todo: quanto maior o desenvolvimento, maior a demanda por energia. Por exemplo: qualquer megacivilização que se preze já se expandiu para além de seu planeta natal e colonizou outros mundos, pelo menos dentro do seu próprio Sistema Solar. Aí que os gastos com energia vão mesmo para a estratosfera - se escoar soja do Mato Grosso já demanda um oceano de diesel, imagina transportar matéria-prima entre um planeta e outro.

Desnecessário dizer que diesel não resolve o problema num caso desses (nem no nosso, mas essa é outra história). O jeito mais racional de obter energia nessa escala absurda, imaginam os cientistas terráqueos, é apelar para o Sol. Ou seja, explorar ao máximo a radiação emitida pela estrela-mãe do planeta em questão. Mas não, painéis solares como os conhecemos não dariam nem para o começo. Os nossos amigos de uma hipercivilização com comércio interplanetário precisariam de painéis grandes. Grandes mesmo. Mastodônticos, com centenas de milhões de quilômetros de extensão. A coisa formaria anéis em torno da estrela, como esta mandala aqui ao lado.

O conceito é conhecido como Esfera de Dyson, assim batizada em homenagem ao físico e matemático britânico que primeiro apresentou o conceito, Freeman Dyson, hoje com 90 anos. Ele partiu do pressuposto de que todas as civilizações tecnológicas constantemente aumentam sua demanda por energia. Pensando em termos terráqueos, se essa tendência (que existe hoje em nossa própria civilização) continuar por tempo suficiente, chegará o dia em que precisaremos de quase 100% da energia emitida pelo Sol para mantermos nossas máquinas funcionando.

Quando essa hora chegar, a melhor solução seria construir essas instalações espaciais cosmofaraônicas em torno de nossa estrela - daria para transmitir a energia via micro-ondas, sem fio, direto do espaço para os planetas em que houver colônias. Dyson apresentou a noção num artigo publicado em 1960 na revista Science, mas a inspiração original veio da ficção científica, que já na década de 1930 falava do assunto.

E agora chegamos ao ponto que interessa. Se os escritores de ficção científica e Freeman Dyson estiverem certos, e alguém lá em cima já tiver construído uma superestrutura dessas, não seria tão difícil detectar a presença de uma delas hoje mesmo, usando os melhores telescópios disponíveis aqui na Terra.

É exatamente isso que Geoff Marcy, da Universidade da Califórnia, quer procurar. "Estamos buscando estrelas que fiquem completamente escuras por um tempo e depois brilhem de novo", diz o americano. "Essa mudança drástica no brilho aconteceria se uma civilização cobrisse sua estrela com anéis para coletar sua luz. Esperamos detectar essas esferas Dyson ao procurar por estrelas que mudem de brilho dramaticamente."

Loucura? Sim. Só que Marcy pode se dar ao luxo de propor coisas nessa linha. Ele construiu uma reputação de cientista de primeira grandeza a partir da década de 1990, quando começou a descobrir os primeiros planetas fora do Sistema Solar. Por pouco, ele não foi o astrônomo que encontrou o primeiro mundo extrassolar, descoberto pelo grupo rival de Michel Mayor, do Observatório de Genebra, em 1995.

Marcy, contudo, foi responsável pela descoberta do primeiro sistema com múltiplos planetas e já soma mais de 110 planetas descobertos. No momento, ele trabalha na equipe do satélite Kepler, da Nasa, que já encontrou milhares de planetas-candidatos durante sua missão de observação de apenas uma pequena parte do céu. E a proposta de procurar sinais de civilizações avançadas está sendo levada a sério. Marcy recebeu um financiamento de US$ 200 mil, que estão sendo pagos entre 2013 e 2014, para procurar por elas justamente nas estrelas observadas pelo Kepler. São cerca de 160 mil estrelas monitoradas constantemente pelo telescópio orbital, mas Marcy deve se concentrar em apenas mil delas, as que pareçam mais amigáveis à existência de planetas potencialmente habitáveis (ou seja: estrelas médias, como o Sol, nem muito ofuscantes, nem muito apagadas).

"O Kepler já descobriu mais de 2 mil novos mundos em torno de outras estrelas, a maioria deles menor que duas vezes o tamanho da Terra, e muitos que provavelmente têm água [o ingrediente mais fundamental para a vida]", diz Marcy. "Essa enxurrada de planetas quase do tamanho terrestre oferece a primeira oportunidade para que nós, humanos, procuremos outras espécies inteligentes."

Nova tentativa

Não é a primeira vez que astrônomos tentam encontrar sinais de Esferas Dyson. Um esforço anterior, conduzido por Richard Carrigan, pesquisador do Fermilab (instituição americana de pesquisa de física de partículas), usou dados do satélite IRAS para tentar encontrar sinais de radiação infravermelha. Essa era a radiação esperada caso houvesse não anéis, mas uma esfera completamente fechada, que envelopasse um sistema solar inteiro - e não deixasse escapar luz visível, só calor, na forma de radiação infravermelha.

Os resultados foram, bem, inconclusivos. "Obtivemos 17 candidatos ambíguos dos quais quatro eram ligeiramente interessantes, mas ainda questionáveis", afirma Carrigan.

De posse dos dados do Kepler, Marcy acredita que pode fazer melhor. Além disso, ele pretende usar tempo do Observatório Keck, no Havaí, para coletar espectros de luz de seus mil alvos, na esperança de detectar um outro sinal de vida inteligente - raios laser. É a última moda na busca por transmissões extraterrestres. Até hoje, a maioria das pesquisas se deu em frequências de rádio, imaginando que as civilizações os usariam para tentar se comunicar conosco. É o que o Seti faz desde a década de 1960. O programa de Busca por Inteligência Extraterrestre (Seti, na sigla em inglês) aponta suas mega-antenas , os radiotelescópios, para alguma região do céu. E tenta captar qualquer coisa que pareça ter sido transmitida por alguma forma de vida na tentativa de se comunicar com a gente, tipo sinais de rádio com frequência que se repetem, que pareçam um código morse interplanetário.

Mas e se os ETs estiverem usando pulsos de laser, em vez de ondas de rádio? Essa é a segunda grande aposta de Marcy. Ele aponta que os militares americanos já estão usando cada vez mais laser, em vez de rádio, para se comunicar com suas espaçonaves. "Lasers são mais eficientes do ponto de vista energético, e eles permitem que dois grupos se comuniquem com mais privacidade", diz o astrônomo.

Isso acontece porque o laser, por ser uma forma de luz "organizada" (os físicos chamam de "coerente"), precisa ser apontado na direção do receptor do sinal, pois "vaza" muito pouco em outras direções. Já as ondas de rádio se propagam mais livremente para todo lado.

Bem, mas qual é a chance de uma civilização distante estar apontando seu laserpointer para nós? Marcy na verdade nem está contando com isso. Ele aposta que os ETs estejam usando lasers para se comunicarem entre si, com suas espaçonaves, colônias etc. Se tivermos sorte, uma dessas transmissões pode, por coincidência, ser disparada na nossa direção. Por enquanto, haverá limitações na busca. "Estamos desenvolvendo novas técnicas, com novos detectores e telescópios, para buscar sinais alienígenas no infravermelho e na luz visível. Vamos torcer para que eles estejam transmitindo nessas frequências!". A busca nas outras frequências (ultra-violeta e raios-x), mais complexa, fica para uma próxima.

Até agora, houve um sinal esquisito de laser detectado em 2009 na Austrália, mas não tiveram como confirmar sua suposta natureza artificial, porque ela não se repetiu - a exemplo do que já tinha acontecido com as buscas por sinais de rádio. Em 1977, um radiossinal com cara de artificial, formando padrões aparentemente repetidos, foi detectado em Ohio, levando o operador do radiotelescópio a anotar "Uau!" em seus relatórios. Mas o fenômeno nunca mais aconteceu de novo.
Bom, a verdade é que, se somos ruins para prever o futuro da humanidade, calcule o desafio de especular sobre o que estão fazendo civilizações alienígenas bem mais avançadas do que nós. Marcy se dá conta do tamanho do problema. "Talvez eles não transmitam ondas de rádio ou qualquer outro comprimento de onda de luz", afirma. "Mas não podemos buscar tipos de comunicação que não fomos capazes de imaginar. Precisamos empurrar nosso potencial para tentar fazer descobertas, sem saber de antemão se há alguma chance de sucesso." Pois é. No fim, estamos limitados pela nossa imaginação. Ainda bem que, pelo jeito, ela tem combustível de sobra.



Fonte:Super Interessante